Manaus aos 357 anos: uma das cidades mais ricas do Brasil ainda enfrenta problemas de saneamento e infraestrutura
Capital amazonense está entre as maiores economias municipais do Brasil, mas enfrenta problemas relacionados ao saneamento básico, à expansão das áreas urbanas e à poluição ambiental
Manaus (AM) – A capital do Amazonas completou 357 anos neste sábado (24 de outubro), consolidando sua importância econômica, histórica e cultural para a Região Norte. Fundada em 1669, às margens do Rio Negro, Manaus se transformou em um dos principais centros urbanos da Amazônia, reunindo desenvolvimento industrial, diversidade cultural e desafios relacionados à infraestrutura e à preservação ambiental.
Segundo dados de 2023 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Manaus ocupa a sexta posição entre os municípios brasileiros com maior Produto Interno Bruto (PIB), alcançando R$ 127,6 bilhões. A cidade também é a mais populosa da Região Norte e ocupa a sétima posição no ranking nacional de população.
Apesar da relevância econômica, a capital enfrenta dificuldades relacionadas ao crescimento urbano, à ocupação de áreas vulneráveis, à coleta e ao tratamento de esgoto e aos impactos das queimadas sobre a qualidade do ar.
Origem de Manaus remonta à ocupação portuguesa na Amazônia
A história de Manaus começou em 1669, com a construção do Forte de São José da Barra do Rio Negro, estrutura militar destinada a assegurar a presença portuguesa na região amazônica. A fortificação, idealizada pelo capitão Francisco da Mota Falcão, deu origem ao povoado conhecido como Lugar da Barra.
Naquele período, a Amazônia era alvo de disputas territoriais entre potências europeias. Embora o Tratado de Tordesilhas, firmado em 1494, atribuísse parte significativa da região à Espanha, os portugueses avançaram sobre o território e estabeleceram fortificações para consolidar sua ocupação.
A assinatura do Tratado de Madri, em 1750, contribuiu para redefinir os limites territoriais entre Portugal e Espanha, considerando a ocupação efetiva das terras.
Com o passar dos anos, o povoado ganhou importância administrativa. Em 1832, foi elevado à categoria de vila, recebendo o nome de Vila da Barra. Em 24 de outubro de 1848, tornou-se cidade, denominada Cidade da Barra de São José do Rio Negro.
O nome Manaus foi oficializado em 4 de setembro de 1856, em homenagem ao povo indígena Manaós, que habitava a região antes da colonização portuguesa. A denominação é tradicionalmente associada à expressão “mãe dos deuses”.
Ciclo da borracha transformou Manaus em centro econômico
Entre o final do século XIX e o início do século XX, Manaus passou por um período de expansão econômica impulsionado pela produção e exportação de borracha.
A crescente demanda internacional por látex, utilizada principalmente pela indústria automobilística, atraiu investimentos e contribuiu para a modernização da capital amazonense.
Durante esse período, conhecido como Belle Époque, foram construídos importantes patrimônios arquitetônicos, entre eles o Teatro Amazonas, inaugurado em 1896 e considerado um dos principais símbolos históricos da cidade.
O auge da economia da borracha ocorreu entre 1879 e 1912. Posteriormente, a concorrência da produção asiática provocou o enfraquecimento do setor e trouxe dificuldades econômicas para a região.
Zona Franca mantém Manaus entre as maiores economias brasileiras
A criação da Zona Franca de Manaus, em 1967, representou uma nova etapa de desenvolvimento econômico para a capital.
O modelo de incentivos fiscais contribuiu para a instalação de indústrias dos segmentos eletroeletrônico, de duas rodas, termoplástico, químico e de bens de informática, entre outros.
Entre janeiro e agosto de 2026, o Polo Industrial de Manaus (PIM) registrou faturamento de R$ 165,12 bilhões, crescimento de 10,47% em comparação com o mesmo período de 2025.
A atividade industrial continua sendo um dos principais motores da economia amazonense, com impacto na geração de empregos, na arrecadação e na movimentação comercial.
A localização geográfica também faz do transporte fluvial uma atividade essencial para o abastecimento e a integração regional. O Porto de Manaus desempenha papel estratégico na circulação de mercadorias e passageiros entre municípios do Amazonas e outras localidades da Amazônia.
Mais da metade da população vive em favelas e comunidades urbanas
O crescimento populacional de Manaus ocorreu acompanhado da expansão de bairros e comunidades, nem sempre com infraestrutura adequada.
Dados do Censo 2022 do IBGE, divulgados pelo Dicionário de Favelas Marielle Franco, apontam que aproximadamente 1,15 milhão de pessoas vivem em favelas e comunidades urbanas na capital amazonense.
O número representa mais de 55% da população municipal e coloca Manaus na terceira posição nacional em quantidade de moradores nessas áreas.
Levantamentos do MapBiomas também identificam um crescimento significativo da ocupação urbana em áreas classificadas como favelas desde 1985.
A expansão territorial aumenta a demanda por moradia, transporte público, abastecimento de água, saneamento básico e serviços de saúde e educação.
A ocupação de encostas, margens de igarapés e outras áreas ambientalmente vulneráveis também amplia os riscos de deslizamentos, alagamentos e danos durante períodos de chuvas intensas.
Saneamento básico continua entre os principais desafios
Embora Manaus esteja entre as maiores economias municipais do país, a cobertura dos serviços de saneamento ainda apresenta diferenças significativas.
Indicadores citados no levantamento apontam que aproximadamente 97% da população possui acesso à água tratada, enquanto a cobertura da rede de esgoto alcança cerca de 32% dos moradores.
Os dados também indicam que menos de 23% dos dejetos coletados recebem tratamento, cenário que contribui para a contaminação de cursos d’água urbanos.
Os igarapés, que integram a rede hidrográfica da capital, sofrem com o lançamento irregular de resíduos, descarte de lixo e ocupações em suas margens.
A ampliação da coleta e do tratamento de esgoto está entre as medidas necessárias para reduzir a poluição e melhorar as condições sanitárias da população.
Queimadas e fumaça agravam problemas ambientais
Localizada no centro da Floresta Amazônica, Manaus convive com impactos ambientais relacionados ao desmatamento, à expansão urbana e às queimadas registradas na região.
Em outubro de 2026, a capital enfrentou 14 dias consecutivos de fumaça intensa, que comprometeu a visibilidade e provocou deterioração da qualidade do ar.
No dia 17 de outubro, Manaus apareceu no levantamento da plataforma internacional IQAir como a cidade com a pior qualidade do ar do mundo naquele momento.
A situação apresentou melhora após as chuvas registradas em 21 de outubro, que contribuíram para dispersar parte dos poluentes presentes na atmosfera.
A exposição à fumaça das queimadas representa um risco à saúde pública, principalmente para crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias.
Além da poluição atmosférica, o município enfrenta problemas associados ao descarte inadequado de resíduos, à degradação de áreas verdes e à ocupação de regiões ambientalmente sensíveis.
Encontro das Águas e patrimônio natural marcam identidade da cidade
Entre os principais patrimônios naturais de Manaus está o Encontro das Águas, fenômeno localizado nas proximidades da capital, onde os rios Negro e Solimões seguem lado a lado por quilômetros antes de se misturarem.
O fenômeno ocorre devido às diferenças de temperatura, velocidade e densidade das águas, sendo um dos principais atrativos turísticos da região.
A capital também possui áreas de conservação, parques urbanos e espaços culturais que contribuem para a preservação da história e da biodiversidade amazônica.
A relação com os rios, a floresta e os povos indígenas integra a formação histórica e cultural do município.
Manaus chega aos 357 anos com desafios para o futuro
Ao completar 357 anos, Manaus reúne indicadores expressivos de atividade econômica e desafios relacionados à qualidade de vida da população.
A expansão do saneamento básico, o planejamento urbano, a mobilidade, a recuperação dos igarapés e a preservação das áreas verdes estão entre as principais demandas da capital.
O desenvolvimento da cidade nos próximos anos dependerá da capacidade de conciliar o crescimento econômico e populacional com investimentos em infraestrutura e medidas de proteção ambiental.

